Oduvaldo Vianna Filho Autor, Prefaciador - 1936, Brasil
Oduvaldo Vianna Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1936, filho de um dramaturgo (Oduvaldo Vianna) e de uma radialista (Deocélia Vianna). Ligado à militância política comunista por influência de seus pais, cresceu em contato com quadros históricos do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ao ingressar no movimento estudantil, ainda na adolescência, organizou, juntamente com Gianfrancesco Guarnieri e outros companheiros, o Teatro Paulista do Estudante. Ao longo de sua carreira Vianna participou de frentes de trabalho fundamentais para a renovação da dramaturgia e do teatro como veículos de reflexões estéticas e políticas: o Teatro de Arena de São Paulo, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC), e o grupo Opinião, do Rio de Janeiro. No CPC seu trabalho teve crucial importância para a criação de um teatro político de rua, de que ele participou como dramaturgo e como ator.
Em 1964, com o golpe e a implantação do regime autoritário, a perseguição política tornou impossível a continuidade do projeto cultural que ali se desenvolvia, e a prioridade artística e política de Vianna, dentro dessa nova e difícil conjuntura, passa a ser a resistência ao golpe, entendida como primeiro passo para a luta contra o autoritarismo.
Em 1968, com o Ato Institucional número 5, é implantada a censura prévia aos meios de comunicação, e acirra-se a repressão a todos os que se ligassem à militância e à arte de esquerda. A necessidade de trabalhar e o desejo de atingir outras faixas de público levam Vianna a estreitar seus laços com a televisão, já que todas as suas peças haviam passado a ser sumariamente proibidas pela censura. Escrevendo inicialmente para o programa de teleteatro de Bibi Ferreira (Bibi – Série Especial), na Tupi do Rio de Janeiro, Vianna (juntamente com seu ex-companheiro do CPC, Armando Costa) passa, em 1973, a criar, na TV Globo, os roteiros de A Grande Família, programa em que o talento de comediógrafo herdado de seu pai, Oduvaldo Vianna, se fez sentir.
A censura impediu que a grande maioria das peças que Vianna escrevera após o golpe fossem encenadas, mesmo que tivessem sido premiadas pelo concurso de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro, como Papa Highirte (1968) e Rasga coração (1974), seu último trabalho.
- nascimento — morte 1936 — 1974
- país Brasil
- projetos 9 obras publicadas

Allegro desbundaccio
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Buja (Azambuja)
Sou um egoísta, entende? já estava com úlcera, sinto ânsia de vômito quando a vida engrossa, sou uma sensitiva – resolvi não terminar no Pinel. E também tenho o meu lado altruísta – além de não ir pro Pinel, também não quero enlouquecer a humanidade…
-
Teresa
Humanidade se vira, qual é? não enlouquece assim fácil…
-
Buja (Azambuja)
Mas eu fazia publicidade, companheira, dava uma boa mão… (Tem ânsias) Está vendo? nem posso falar
pag. 59
nisso ainda direito… sabe quanto se gasta de publicidade nos Estados Unidos, por exemplo? 20 bilhões de dólares. Vinte bi! Bi de Bibi Ferreira! Metade do Produto Bruto Brasileiro de um ano! (Tem ânsia) … entende? (Vai falar do banheiro pra se prevenir) … cada ano um novo carro, nova geladeira nova maçaneta prá porta nova calça novo batom, margarina mais cremosa; exércitos pra bolar novos modelos, exércitos pra fazer pesquisa, exércitos pra fazer espionagem industrial, tudo pra bolar um novo dentifrício com listinha, é o famoso parto da montanha! Rios de dinheiro e as pessoas passando fome e miséria… demagógico eu, não? lembro o velho PTB, não?… 20 bilhões de dólares dá pra que? Por exemplo… dá pra construir casas pra todos os brasileiros… (Tem ânsias mais fortes) … não dá pra falar muito nisso, eu te explico um dia, aos poucos, com um piniquinho na mão… (Sai)
Allegro desbundaccio
A trama se passa num caótico apartamento carioca, onde acompanhamos uma acelerada trama de encontros, desencontros e quiproquós, cujo núcleo duro é formado por três personagens: Protético, um dentista homossexual vivendo no limite da sobrevivência financeira; Buja, um publicitário que abandonou, ...
conheça mais- Brasil
- 1973
- 2024
- 200 págs

Nossa vida em família
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Afonsinho (Afonso Laranha)
Que é isso, velho amigo, deixa o médico te ver, ele tem uma cara boa, deixa de ser D. Quixote!
-
Sousa
Sou ao contrário de D. Quixote… ele queria transformar o mundo… eu queria aceitar, fiz o possível pra aceitar sem me esfaquear, sem me trair, com garbo, não sou como você que escapole, como um camundongo, que ginga, que dançarilha…
pag. 128
Nossa vida em família
Ao não conseguir arcar com o aumento do aluguel, o casal idoso Sousa e Lu é obrigado a deixar sua casa em Miguel Pereira, na cidade do Rio de Janeiro, lar que os acolheu por vinte anos. Isso os obriga a recorrer aos filhos para encontrar um novo lugar, e a solução provisória adotada é de separá-l...
conheça mais- Brasil
- 1971
- 2024
- 184 págs

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Todos
(Cantam)
pag. 33
Se corres, bicho te pega, amô.
Se ficas, ele te come.
Ai, que bicho será esse, amô?
Que tem braço e pé de homem?
Com a mão direita ele rouba, amô,
e com a esquerda ele entrega;
janeiro te dá trabalho, amô,
dezembro te desemprega;
de dia ele grita “avante”, amô,
de noite ele diz: “Não vá!”
Será esse bicho um homem, amô,
ou muitos homens será?
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come
"Terceiro espetáculo do grupo Opinião. Assim como os shows Opinião e Liberdade, liberdade, esta peça também foi concebida no contexto pós 1964, porém assumiu, mais do que os espetáculos anteriores, o grande desafio de encontrar uma linguagem teatral que permitisse analisar criticamente as circuns...
conheça mais- Brasil
- 1966
- 2024
- 224 págs

Moço em estado de sítio
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Bahia (Otaviano Bahia)
Política não é tragédia, não. Tragédia nem os gregos escreveram. O negócio é errou ou acertou. Essa revolução da peça entrou pelo cano porque eles erraram e o autor não sabe disso.
-
Lúcio (Lúcio Paulo Bastos Seabra)
Eles erraram, pensaram que tinham força demais.
-
Bahia (Otaviano Bahia)
Isso você está me dizendo agora que na peça não tem, não.
-
Vozes
Como não tem? – A peça é didática! – Não pode querer obra-prima!
pags. 53 -- 54
Moço em estado de sítio
Este texto traz à cena os embates do protagonista Lúcio Paulo com outros integrantes de um coletivo teatral do qual participa. Além das disputas por protagonismo, dos conflitos amorosos e dos desentendimentos políticos e estéticos entre os membros do grupo, a peça retrata os embates do jovem com ...
conheça mais- Brasil
- 1965
- 2021
- 136 págs

Mão na luva
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Ele (Lúcio Paulo Freitas)
Quer dizer que você vai embora mesmo, assim? (Tempo. Ela faz que sim) Está certo. Deve ser talvez melhor, quem sabe. (Pausa) Ontem tudo não estava bem? (Pausa) Nove anos... Por que mesmo?
-
Ela (Sílvia)
A gente não anda assim longe assim?... Me sinto mal, preciso pros dois.
-
Ele (Lúcio Paulo Freitas)
É. (Pausa) Vai pra casa da tua mãe?
-
Ela (Sílvia)
Um tempo, com as crianças. É.
-
Ele (Lúcio Paulo Freitas)
Vejo elas no domingo?
-
Ela (Sílvia)
É, quando puder, de noite passa lá...
-
Ele (Lúcio Paulo Freitas)
Claro. A babá?
-
Ela (Sílvia)
Ela vai.
Mão na luva
"Um casal — Ele e Ela — vive uma crise e discute sobre a separação. Ela quer deixar o casamento, alegando não o aguentar mais, ao passo que Ele resiste à ideia e menospreza as motivações da companheira. O conflito matrimonial desvela camadas mais profundas conforme o leitor-espectador se depara c...
conheça mais- Brasil
- 1969
- 2021
- 132 págs

Corpo a corpo
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Vivacqua (Luiz Toledo Vivacqua)
[...] “Não é possível você assim desarrumado, Vivacqua, um homem que ganha 8 milhões por mês e…” Eu tenho vergonha disso, Suely! e faz mais de quatro meses que só ganho ordenado, comissão não ganho mais! quatro meses só com 3 milhões e os descontos… tenho vergonha de ganhar 8 milhões, 2 milhões, 20 mil réis, por nada! “Não! Por nada? Ora, Vivacqua! É pra fazer propaganda! Que é isso, Vivacqua? Essa insatisfação vai te matar, Vivacqua!”… que propaganda, pelo amor de Deus? propaganda pras pessoas serem o que não podem ser? O que não têm jeito de ser e ficarem se roendo, os olhos amarelos de inveja? Passar a vida vendo se o vizinho tem geladeira de quantos pés?… Faz quatro meses que não me dão mais nenhum filme pra fazer! Vou virar office boy, marcando hora de estúdio e…? 8 milhões pra ser lustroso, pra ser alcoviteira do Tolentino, pra fazer filme de Cera Lemos “que belo chão temos”! Pra ficar encostado na agência porque eu sou amigo do Aureliano e o Aureliano não tem coragem de me dar filme pra fazer porque querem botar ele pra fora e ele faz tudo o que o Fialho manda e o Fialho não me bota pra fora que ele tem medo de mim porque eu sou alcoviteira do Tolentino… propaganda é isso, uma corrida desesperada de todo mundo pra vender cenários e humilhação… sou pago pra não tomar conhecimento do povo, jogar luxo nos olhos dele… sou pago pra provar pra ele que uma geladeira é um ser superior que uma loja é um templo onde se dá a multiplicação dos liquidificadores… quem não tem uma batedeira de bolo não entra no Reino dos Céus… a gente fica tão metido dentro daquela agência, tão atrás tricas e futricas que a gente esquece que foram eles que fizeram a geladeira, pomba, com o maçarico na mão… a gente começa a acreditar que somos nós que carregamos o povo nas costas… somos nós que temos de trabalhar feito cruzados pra convencer essa gente a acreditar no conforto, nos liquidificadores… eles ficam de outro país, entende? outro sangue, metabolismo diferente, é outra raça… “por isso é que são tão marelados, cavalheiro, entende?… esse amarelo na cara deles? Ah são
pags. 27 -- 29
pessoas, não sei como explicar, cavalheiro, entende?… esse amarelo na cara deles? A cara toda vincada que quase não dá mais pra descobrir uma pessoa lá dentro? pois é! não são pessoas, não sei como explicar, cavalheiro, são amarelados…” por isso que eu não passo na porta de uma favela e não sento no meio-fio e fico chorando até estuporar as minhas veias lacrimejantes, a carótida, a aorta, o baço, a cabeça, por isso que meu olho não salta da pupila e… (Para. Meio desvairado. Longo tempo de silêncio) … eles querem pôr pra fora o Aureliano… o Aureliano tem indenização… e eu?… as outras agências também estão despedindo gente!… faz quatro meses que não faço filme… o da Cera Lemos todo mundo falou, falaram… mas isso se esquece rápido… isso…
Corpo a corpo
"Luiz Vivacqua é sociólogo, mas trabalha em uma agência de publicidade dirigindo a produção de anúncios para diversas mercadorias de uso cotidiano. Certa madrugada, transtornado pela substituição de um colega de trabalho na agência, bem como pelas condições de sua vida pessoal – casamento iminent...
conheça mais- Brasil
- 1970
- 2021
- 104 págs

Papa Highirte
Teatro brasileiro
trecho da obra
-
Juan Maria Guzamón Highirte (Papa Highirte)
… Há quatro anos que eu lhe digo que a responsabilidade pela morte de seu sobrinho não foi minha, Grissa!
-
Grissa
… Eu sei.
-
Juan Maria Guzamón Highirte (Papa Highirte)
Ele fugiu da cadeia, foram os comunistas!
-
Grissa
... Eu sei, Papa...
-
Juan Maria Guzamón Highirte (Papa Highirte)
Não, não acredita.
-
Grissa
Acredito.
-
Juan Maria Guzamón Highirte (Papa Highirte)
Não acredita.
-
Grissa
Acredito, Papa, eu…
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Juan Maria Guzamón Highirte (Papa Highirte)
… Não acredita, não acredita, basta ser uma autoridade para não ter crédito! Ninguém mais tem coragem de ser autoridade, este é o mundo de vocês, para vocês democracia é isso, um vento, papa-ventos no mundo cada um faça o que quiser! E o nojo da autoridade por todo mundo, democracia não é uma aventura, não é piquenique, não é o mundo dos adiamentos, das desculpas, não é um baile das regalias, democracia é também uma procissão dos deveres, entendeu, Grissa? Você quando você vai entender
pags. 17 -- 18
vocês todos?
Papa Highirte
Juan Maria Guzamón Highirte, conhecido como Papa Highirte, é um ex-ditador exilado na fictícia república latino-americana de Montalva. Após ser deposto por generais de seu governo, Papa Highirte deixara sua terra natal, a também ficcional Alhambra, e passara a viver em um bunker com seus empregad...
conheça mais- Brasil
- 1968
- 2019
- 120 págs

A longa noite de Cristal
Teatro brasileiro
trecho da obra
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Cristal (Celso Almeida Gagliano)
Vamos fazer jornalismo, vamos, Fernandinho, quente, câmera na rua na boca do cofre, povo, povo mesmo, essa gente de carteira de trabalho na mão é muito mal entendida, sabe? eles…
-
Fernandinho
… não é verdade, tenho três irmãos médicos…
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Cristal (Celso Almeida Gagliano)
… é verdade, eu sou repórter…
-
Fernandinho
… mas viu, Cristal? Essa notícia do hospital não interessa mesmo pra casa, viu?
-
Cristal (Celso Almeida Gagliano)
Sabe o que é, Fernandinho? Como é que eu vou desmentir um troço que não é mentira? Você não sente que é meio surrealista?
-
Fernandinho
(Ri) Ah, meu Cristal querido dos coquetéis e das palavras difíceis! Você é macaco velho, nunca fincou o pé, agora vai fincar pé?
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Cristal (Celso Almeida Gagliano)
… e olha que não dou sessenta no Ibope.
pag. 58
A longa noite de Cristal
Cristal é o apelido de Celso Almeida Gagliano, ex-locutor radiofônico que se tornara famoso por sua voz com timbre cristalino. Trabalhando agora como apresentador de um telejornal, ele é incapaz de compreender as pressões econômicas, associadas ao regime militar, sofridas por seu colega Murilo, c...
conheça mais- Brasil
- 1969
- 2019
- 120 págs

Rasga coração
Teatro brasileiro
trecho da obra
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Luca (Luís Carlos)
[...] (Tempo) Mas não fica dizendo que minha geração está perdida, que só pensa em sexo!
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Manguari Pistolão (Custódio Manhães Jr.)
Nunca disse isso, não seja...
-
Luca (Luís Carlos)
Diz que todas as gerações só pensam em sexo! Só que umas não querem encarar isso!
-
Manguari Pistolão (Custódio Manhães Jr.)
Todas as gerações só pensam em justiça, só que umas não querem encarar isso!
-
Luca (Luís Carlos)
Qual é a justiça, super? A mesma vida morta pra cada um?
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Manguari Pistolão (Custódio Manhães Jr.)
O mesmo combate pra cada um...
pag. 45
Rasga coração
"Última peça escrita por Oduvaldo Vianna Filho, que se manteve censurada até 1979. A peça aborda o conflito geracional entre Maguari Pistolão, funcionário público e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e seu filho Luca, adepto à contracultura.Utilizando-se a técnica de colagem, a narr...
conheça mais- Brasil
- 1974
- 2018
-
Allegro desbundaccio Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 85,00
R$ 76,50
-
Nossa vida em família Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 85,00
R$ 76,50
-
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 85,00
R$ 59,50
-
Moço em estado de sítio Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 60,00
R$ 54,00
-
Mão na luva Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 60,00
R$ 54,00
-
Corpo a corpo Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 60,00
R$ 54,00
-
Papa Highirte Oduvaldo Vianna Filho
comprarR$ 60,00
R$ 54,00
-
A longa noite de Cristal Oduvaldo Vianna Filho
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R$ 54,00
-
Rasga coração Oduvaldo Vianna Filho
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R$ 95,00
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