A atualidade de Augusto Boal: uma cena de "Revolução na América do Sul"
por Augusto Boal
categoria: Editorial
-
tempo de leitura
7 min
Augusto Boal foi um dramaturgo com grande protagonismo na cena teatral paulista e carioca, entre os anos 1960 e 1970, e, posteriormente, um autor conhecido também na Argentina e na Europa. Depois de ter completado seus estudos na Universidade de Columbia, em Nova York, ele retornou ao Brasil, em 1956, trazendo em sua bagagem novos referenciais teatrais, adquiridos no contato com críticos do porte de John Gassner (1903–1967) e com os trabalhos interpretativos do Actors Studio, importante centro estadunidense de preparação de atores, baseado em grande medida em uma assimilação peculiar de técnicas do diretor russo Stanislavski. É nesse contexto, em sua volta ao Brasil, que Boal contribuiu de maneira decisiva para o Teatro de Arena e para os Seminários de Dramaturgia – laboratório de escrita teatral desenvolvido pelo grupo do Arena.
Revolução na América do Sul, estreada em 1960, é uma das primeiras peças brasileiras a colocar a classe trabalhadora em cena sob o prisma da luta de classes. O caminho fora aberto anos antes, em 1958, pelo grande sucesso de público da peça Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri (1934–2006). Mas, se a peça de Guarnieri é claramente um drama, a de Boal emprega uma forma diferente, que contempla elementos do circo e do teatro épico, além da figura do compère, do teatro de revista[1], assumida pelo personagem José da Silva.
Há cinco anos, Revolução na América do Sul foi novamente trazida à tona pela peça Os que ficam, escrita por Sérgio de Carvalho em colaboração com a Companhia do Latão, e concebida, segundo nos diz seu subtítulo, como “um diálogo teatral com Augusto Boal”. Ao retratar um grupo de atores que se depara com uma série de questões e impasses estéticos, políticos e materiais durante a montagem da peça de Boal – em pleno período ditatorial brasileiro pós-AI-5 –, Os que ficam reapresenta, em novo contexto, alguns dos elementos originais do texto, como o Anjo do Imperialismo e a figura de José da Silva, que também comparecem na cena que agora trazemos.
Confira a seguir um trecho selecionado do Segundo ato de Revolução na América do Sul:
Cena 8: A revolução da honestidade também coliga, ou a união acaba com a revolução
Estão em cena o jornalista e o milionário
Jornalista: Estou com um drama de consciência. Eu estava do lado de lá, agora estou do lado de cá. Eu de um lado e você do outro, nós dois metíamos o pau no Zequinha Tapioca. Agora que estamos do mesmo lado, elogiamos o Zequinha Tapioca. O Zequinha Tapioca, que nunca ninguém soube de que lado estava, queria fazer revolução contra você, que estava do lado de cá, e contra mim, que estava do lado de lá. Agora já não sei mais de que lado é o lado de lá, de que lado é o lado de cá.
Milionário Nós estamos do lado do povo.
Jornalista: Então está todo mundo do mesmo lado.
Milionário: Os nossos inimigos estão sempre contra o povo, e o povo está sempre do nosso lado.
Jornalista: Como eu sou Jornalista, quero simplificar as coisas: quem é que eu tenho que elogiar, e quem é que eu tenho que meter o pau? Tem que elogiar o Zequinha. Ele é revolucionário!
Milionário: Jesus Cristo também foi, meu filho.
Jornalista: Revolução pra quê? Está tudo indo tão bem. Aumentaram o salário mínimo, meu jornal está cada vez mais rico, minha filha casa amanhã... Revolução pra quê?
Milionário: Foi ele que descobriu a honestidade.
Jornalista: Isso já existia. Lá na Suíça, onde eles passam a vida fazendo relógio, lá eles são honestos até em política.
Milionário: Que absurdo (morre de rir). Parece piada...
Jornalista: Você acha mesmo que o Zequinha serve pra nosso candidato?
Milionário: Sabe o que o meu Anjo da Guarda disse?
Jornalista: Não.
Milionário: Que esse negócio de plataforma, programa programático, isso tudo é besteira. O que resolve mesmo é o personalismo, o eleitor vota na cara. E quem vê cara não vê programa.
Jornalista: Você acha ele bonito?
Milionário: Já viu candidato bonito? Precisa ser feio como a fome. Dá a impressão de que o povo está votando em si mesmo (toca a campainha). É ele. Dá o fora (saem os dois apressados; entra Zequinha. Logo atrás entram José e a Mulher).
José [da Silva]: O Zequinha vai falar com o Patrão. Vai ver se ele quer financiar urna revoluçãozinha.
Mulher: Revolução pra que?
José: Então você não sabe que o país está cada vez mais pobre, que nós estamos cada vez mais pobres, que os pobres estão cada vez mais pobres?
Mulher: E dai?
José: Daí vamos fazer a Revolução da Honestidade.
Mulher: Honestidade? Que é isso?
José: Num sei. Só sei que eu sou pobre, pobre, pobre de marré, marré de sim (sai. Voltam Zequinha e o Milionário).
Milionário: Política não é diversão de pobre.
Zequinha: Eu sou pobre.
Milionário: Fuma estora peito, anda todo sujo, cheira mal...
Zequinha: Em casa não tem chuveiro.
Milionário: É assim mesmo que você me serve.
Zequinha: Por que?
Milionário: Primeiro: você é feio. Segundo: inventou a honestidade.
Zequinha: (feliz) Já ganhei. Já ganhei.
Milionário: Mas quem é que vai financiar a sua campanha?
Zequinha: É mesmo, eu nem pensei nisso... É muito cara?
Milionário: Pensa bem: cartazes na rua, faixas, pixe, comícios, rádio, viagens... Quem é que vai pagar tudo isso?
Zequinha: Tem razão. Quem é que vai pagar tudo isso?
Milionário: Eu. Eu pago a sua campanha.
Zequinha: Mas você é do lado de lá.
Milionário: Então vem pro lado de cá.
Zequinha: How?
Milionário: Qual é a sua bandeira?
Zequinha: Honestidade.
Milionário: E a minha?
Zequinha: Verde e amarela com uma garrafa de Coca-Cola no centro.
Milionário: Certo. Mas, concretamente?
Zequinha: O dinheiro!
Milionário: E qual é a solução? Honestidade e dinheiro?
Zequinha: Juntar a honestidade com o dinheiro.
Milionário: Juntemos as nossas bandeiras.
José: (entrando) Você está louco, chefe. Nós vamos fazer uma revolução.
Milionário: Manda ele embora que isto é uma conferência de cúpula.
Zequinha: Isto é cúpula!
José: Até você está entrando nessa marmelada? Você que passou fome comigo?
Zequinha: Parece carrapato, fica grudado na gente. Cúpula sou eu e ele, você não tem que resolver nada. Tem que votar em mim, depois.
Milionário: Toma dez cruzeiros e vai comprar um Bauru.
José: Custa doze.
Milionário: Toma vinte e traz o troco.
José: Posso comer sanduiche americano com ovo?
Milionário: Vai, vai (ele sai). É assim que se deve tratar essa gente: panen et circus.
Zequinha: Tradução: feijão com arroz e filme da Metro com a Grace Kelly.
Milionário: Vamos fazer um só partido.
Zequinha: Mas não pode. A revolução, como o nome indica, é da Oposição, e vocês, com perdão da palavra, são a Situação. Eu sou Oposição.
Milionário: Exatamente: você! Quando se fala em político honesto em quem é que se fala?
Zequinha: Em mim.
Milionário: Quando se fala em dinheiro, em que é que se fala?
Zequinha: Você.
Milionário: Vamos nos unir?
Zequinha: Vamos.
Milionário Você topa?
Zequinha: Topo.
Milionário: Como é o nome disso?
Zequinha: Hipnotismo.
Milionário: Co-li-ga-ção. A honestidade e o dinheiro, juntos numa só bandeira.
Zequinha: E você paga a festa?
Milionário: Eu não.
Zequinha: Então quem? (entra o Anjo da Guarda).
Milionário: Hello, Angel, take a seat (explicativo). É o meu Anjo da Guarda. Veio fazer uma visita de cortesia (para o Anjo). It’s all set (entra o jornalista. O Anjo traz uma casaca que veste em Zequinha, que põe também uma cartola).
Jornalista: Acertaram tudo?
Milionário: Põe em manchete: Zequinha Tapioca aderiu.
Jornalista: Vamos começar a distribuição?
Milionário: Distribuir o quê?
Jornalista: Quero o Banco, a Caixa e a Secretaria da Fazenda.
Milionário: Que falta de compostura, na frente de estranhos...
Jornalista: É pra facilitar o serviço...
Zequinha: Vamos todos mudar de nome.
Milionário: Por que?
Zequinha: É uma grande jogada. Todo mundo vai ter nome de coisa que limpa. Somos honestos e vamos lavar a podridão do país. Vote em Zequinha Tapioca, o Sabonete da Alma.
Jornalista: Eu sou o criolina.
Milionário: Eu sou o palha-de-aço.
Anjo: Good, good, that's my boy.
Zequinha: E nós três juntos, somos o Comando Sanitário: Sabonete, criolina e palha-de-aço (cantam a Canção da Limpíssima Trindade).
Nos três que bela trinca
Trinca que lava, trinca que limpa
Somos três mosqueteiros do bem
Irmanados pela honestidade
Somos limpíssima trindade
Somos higiênica trindade
Um por todos
Todos por um
Fim da Cena 8
[1] O teatro de revista é um gênero popular de teatro que ganhou notoriedade no Brasil a partir do final do século XIX. Ele valia-se de elementos cômicos, do uso de cenários e figurinos extravagantes, da dança e da música, para retratar a sociedade vigente, seus costumes, tipos e modos. Personagem ficcional cômico, o compère era uma figura essencial em textos deste gênero, pois realizava a interação com o público e fornecia o fio condutor entre os diferentes números e esquetes, de cuja sequência esses espetáculos eram constituídos.
referências
Trecho extraído de Revolução na América do Sul (São Paulo: Massao Ohno Editora, Coleção dos Novíssimos v. 7, 1960, pp. 61-65).
No banner: Detalhe do programa da peça na publicação Teatro de Arena em revista (n. 1, setembro de 1960).
artigo por
Augusto Boal
Dramaturgo, diretor teatral e ensaísta brasileiro, reconhecido internacionalmente como um dos maiores nomes do teatro do século XX e criador do Teatro do Oprimido. Formado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com estudos em Arte Dramática pela Universidade de Columbia (Nova York), teve atuação marcante na consolidação do Teatro de Arena e nos Seminários de Dramaturgia entre as décadas de 1950 e 1970. Autor de obras icônicas como Revolução na América do Sul e Arena Conta Zumbi, dedicou sua trajetória ao desenvolvimento de metodologias e práticas cênicas voltadas à transformação social, à cidadania e à democratização da linguagem teatral no Brasil e no exterior.




