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A utopia dos estudantes chilenos em uma cena de Andrés Kalawski

  • por Andrés Kalawski Isla

  • categoria: Editorial

  • tempo de leitura

    3 min
A utopia dos estudantes chilenos em uma cena de Andrés Kalawski

O salão do restaurante aos poucos vira uma outra coisa. A cortina sempre para baixo. Uma outra coisa é usada como mesa, as mesas são usadas como outra coisa. Algumas roupas penduradas. Uma ou outra caixa. Salvador e Miriam no fim de uma refeição. Salvador pega seu prato e começa a se levantar. Miriam se antecipa e pega os dois pratos.

Miriam: Deixa. Eu levo.

Salvador: Vou tirar as roupas, então.

Miriam: Você não comeu nada.

Salvador: Não estou com muita fome.

Miriam: Não sabia que você era tão fresco. Dá um dó jogar fora.

Salvador: Que ideia é essa. Mais tarde eu como.

Miriam: Tá.

Salvador: Arrumei a placa da despensa.

Miriam: Tá. (Começa a sair para a cozinha. Para) Nem almoçar você almoçou.

Salvador: Nada a ver.

Miriam: Faz quanto tempo que você está tirando os pratos?

Salvador: Estou tentando ajudar.

(Miriam põe o prato diante de Salvador)

Miriam: Vamos ficar aqui até que você coma.

Salvador: Tá bom, mamãe.

Miriam: Não é engraçado. Come.

Salvador: Não.

Miriam: Você está doente?

Salvador: Estou tentando ser coerente.

Miriam: Não estou entendendo.

Salvador: Isso.

Miriam: São os temperos? Também me dão enxaqueca. Muito tempo na despensa. Parece que grudam na pele.

Salvador: Não, não.

Miriam: Está te fazendo mal, é bom você não ficar mais lá.}

Salvador: Eu gosto dos temperos.

Miriam: E então? Você está me tirando?

Salvador: É superssério. Estava pensando em como te dizer.

Miriam: Quanto tempo faz que você não come?

Salvador: Também não exagera, tem um método. Outros companheiros fizeram isso. É uma forma de protesto.

Miriam: Você está mal da cabeça.

Salvador: Você falou que eu não sei o que é fome.

Miriam: Nunca disse isso.

Salvador: É verdade. Não tenho como entender o sofrimento se eu não vivi.

Miriam: Você está me tirando.

Salvador: Me ajuda.

Miriam: Não pretendo passar fome.

Salvador: Não. Não quero isso.

Miriam: Você precisa comer.

Salvador: Fiquei aqui. Não voltei com os companheiros.

Miriam: Também estou aqui.

Salvador: A gente deu conta.

Miriam: E foi bom.

Salvador: Eu tinha uma causa.

Miriam: As marchas.

Salvador: Não é as marchas. É transformar as coisas.

Miriam: Você quer passar fome de propósito?

Salvador: Posso fazer a diferença.

Miriam: As coisas são como são.

Salvador: Tem razão. Não é a idade. Na minha idade você já estava derrotada.

Miriam: Você tinha casa.

Salvador: Você tinha mais razões pra se revoltar.

Miriam: Eu queria sair, queria ir ao mar.

Salvador: Tinha gente morrendo e você não fez nada.

Miriam: Eu tinha que me sacrificar? Jogar pedras, esconder pessoas?

Salvador: Agora também tem gente morrendo. Você está vendo a injustiça e não está fazendo nada.

Miriam: É outra coisa. É gente vadia. É gente má.

Salvador: Como você pode dizer isso?

Miriam: Ninguém me ajudou. Não tenho por que ajudar ninguém.

Salvador: Vou fazer isso por todos que precisam.

Miriam: Ninguém liga se um ou outro morre.

Salvador: Eu ligo.

Miriam: Deixa os outros na deles. Cada um sabe o que faz.

Salvador: E eu quero fazer isso.

Miriam: Você é muito novo.

Salvador: Você sempre fala para eu decidir.

Miriam: Você está doente. Esse é o problema.

Salvador: Vou poder continuar trabalhando e tudo mais.

Miriam: Vou te enfiar a comida pela garganta, nem que seja à força.

Salvador: Não consigo sozinho. Preciso de você.

Miriam: Não posso ver você sofrer.

Salvador: Essa é a ideia. Como as coisas da TV. Vão querer parar meu sofrimento. Vão transformar as coisas.

Miriam: Um dia, três? Uma semana? Não, você está mal.

(Salvador pega na mão dela)

referências

Trecho de Andrés Kalawski, Diez mil cosas. Santiago: Consejo Nacional de la Cultura y las Artes, 2013. Publicaciones Cultura.

artigo por

Andrés Kalawski Isla

Dramaturgo, roteirista, historiador e professor universitário chileno. Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Chile (PUC-Chile), onde leciona na Faculdade de Artes e atuou como diretor artístico do Teatro UC. Reconhecido por sua expressiva contribuição ao teatro contemporâneo no Chile, é autor de obras aclamadas como Chef, Niño Probeta e La perra, além de assinar roteiros para produções de televisão e rádio. Sua trajetória destaca-se pela pesquisa e criação dramática que articulam história, memória e crítica social, com peças encenadas e premiadas tanto no Chile quanto em festivais internacionais.

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