Desemprego e precarização do trabalho no teatro de Plínio Marcos
por Editora Temporal
categoria: Editorial
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Nascido em Santos (SP), Plínio Marcos atuou ao longo da vida em muitas frentes: foi palhaço de circo, ator e diretor teatral, técnico no Teatro de Arena em São Paulo, músico, entre outras funções, sem contar o período em que trabalhou como camelô, ao se mudar para São Paulo. O Blog da Temporal traz hoje um trecho da peça Quando as máquinas param (1967)[1].
Como em muitas de suas peças, os personagens de Quando as máquinas param são trabalhadores do chamado subproletariado, isto é, aqueles que vivem na marginalidade, na informalidade e em condições precárias de trabalho, sem qualquer estabilidade. Nina é costureira e Zé, seu marido, um operário fabril que sofre com o acirramento da concorrência entre os membros dessa classe, devido à sua baixa qualificação técnica, num momento de ampliação e modernização da indústria no país.
Em meio a esse contexto e às preocupações, medos, tentativas de solução, esperanças e desesperanças, censuras mútuas, mas também a momentos de diversão, como o futebol e a novela, os conflitos e aparentes conciliações do casal se tecem e os impasses se acumulam.
Quarto quadro
(Zé está escutando um jogo pelo rádio)
Locutor Clodoaldo pra Pelé, o Rei ajeita o esférico, olha a colocação dos seus, tem à sua frente um inimigo. Evita-o com majestade e lança pra Edu, que recebe livre, avança, vai chutar, chuta, e o bolão sai rente às balizas defendidas por Dimas. Placar em Vila Belmiro: Santos 4, Guarani de Campinas 0. Com esse resultado, o alvinegro praiano continua invicto e dá mais um passo rumo ao título. Vai ser cobrado o tiro de meta. Nada mais pode fazer o Guarani. Estamos no crepúsculo da partida. Beber Preá é beber vida. Preá, a cachaça dos esportistas.
(Zé desliga o radio. Anda nervoso de um lado para outro. Entra Nina. Traz uma sacola cheia na mão)
Nina: Oi, Zé.
Zé: Tudo bem lá?
Nina: Graças a Deus.
Zé: A velha está positiva?
Nina: Mamãe está toda contente porque vai receber uma bolada de dinheiro.
Zé: Vai vender a casa?
Nina: Ela não é louca! Vai receber o dinheiro da estrada. Lembra quando apareceu aquele advogado que descobriu que as viúvas dos ferroviários tinham direito a receber um atrasado? Aquele negócio de cargo maior? Você lembra, sim. Você até achou que o cara era vigarista.
Zé: Achei, não. O cara cheirava a vivaldino.
Nina: Pois é. Só que mamãe vai receber os atrasados. Ele que arrumou.
Zé: Então é que vai querer ser vereador nas próximas eleições. Aquele cara não me engana.
Nina: Você nunca viu ele.
Zé: E daí? Pelo que você me falou, já me toquei.
Nina: O que interessa é que minha mãe vai receber.
Zé: Sorte dela.
Nina: Você não fica contente?
Zé: Muito! Estou morrendo de alegria.
Nina: Poxa, Zé. Não é todo dia que se ganha dinheiro.
Zé: Eu não ganhei nada.
Nina: Mamãe ganhou.
Zé: Que faça bom proveito.
Nina: Mas não é porque ela se deu bem que você precisa ficar com essa cara.
Zé: Não estou com essa cara por causa dela.
Nina: Então por que está assim?
Zé: Por causa do Guarani de merda, que só joga contra o Corinthians. Contra a gente, ficaram os onze embaixo da trave para conseguir empatar. Contra o Santos, foram lá pra frente como umas bestas. Bem feito, tomaram quatro e, se o jogo não acaba, levavam mais.
Nina: Você não saiu?
Zé: Bati uma bola com a molecada aí em frente. Depois vim escutar o jogo.
Nina: Viu o jornal?
Zé: Nada que preste.
Nina: Nem hoje, que é domingo?
Zé: Nem hoje. Só falam em guerra. Guerra no Vietnam, guerra no deserto, guerra na China, guerra na casa do cazzo. Emprego mesmo só tem mixuruca.
Nina: O Zelito está indo muito bem com o táxi.
Zé: Ele estava lá?
Nina: Só foi levar a Aninha. Depois foi trabalhar. Não ia perder o domingo. Aninha disse que tem domingo que ele faz cinquenta contos livrinhos.
Zé: Logo eles amarram o cavalo na sombra.
Nina: Fim do ano acabam de pagar o táxi.
Zé: Daí é que vai chover na horta deles.
Nina: Eles estão com vontade de comprar um terreno em Suzano. Depois vão construindo devagar.
Zé: Suzano é longe pacas.
Nina: Mas vai ser deles.
Zé: É! Depois, de carro é sopa.
Nina: Eles estão bem. E merecem. O Zelito sempre trabalhou.
Zé: (Triste) Ele sabe guiar.
Nina: Você podia aprender.
Zé: De que jeito?
Nina: O Zelito te ensina.
Zé: Vou nessa. Ele ia querer que eu esbagaçasse o carro dele?
Nina: Ele mesmo se ofereceu.
Zé: Você foi lá chorar miséria?
Nina: Eu, não. Ele que perguntou se você ainda estava parado. Daí, eu disse que estava.
Zé: E ele morreu de pena.
Nina: Só disse que você podia aprender a guiar com ele. Que, depois, ele trabalhava de dia e você de noite, com o carro. Podia dar pros dois.
Zé: Tá aí uma saída.
Nina: E bem legal!
Zé: Já pensou eu por aí de carango?
Nina: Com o tempo você compra um pra nós.
Zé: E meto a maior decalcomania do escudo do Corinthians no vidro. O do Zelito tem aquele nojento do São Paulo.
Nina: É o time dele.
Zé: Paciência. Só vou aturar aquilo na minha frente por uns tempos. Porque a gente precisa. Senão, não pegava esse carro. O pessoal vai me tomar o pelo. Vão até dizer que eu virei casaca.
Nina: Mas você não pode achar ruim.
Zé: Eu, me bronquear por futebol? Só quero trabalhar.
Nina: Vou te fazer uma camisa de chofer. Daquelas que têm dois bolsos aqui e alça no ombro. Quer?
Zé Azul?
Nina: Não, bege.
Zé: Prefiro azul.
Nina: Mas bege é mais legal.
Zé: Eu gosto de azul.
Nina: A do Zelito é bege.
Zé: E daí? Ele usa a cor que ele quiser. Eu quero azul.
Nina: Mas se os dois têm bege, parece até que é uniforme. Bacana pra chuchu.
Zé: Não é ônibus, pra tudo quanto é chofer andar igual.
Nina: Mas dá a impressão que é táxi bem organizado.
Zé: Dá a impressão que eu sou um puxa-saco. Que anda vestido igual ao patrão. Já não chega a merda do escudo do São Paulo no vidro?
Nina: Tá bom, eu faço azul. (Pausa) Mas, se eu também fizer uma bege, você usa?
Zé: Daí uso.
Nina: Então vou fazer. Você vai ficar bacana pra chuchu com essa camisa. Só quero ver.
(Pausa)
Zé: Não vai dar pé, Nina.
Nina: O quê?
Zé: Essa jogada de eu ser motorista.
Nina: Não sei por quê.
Zé: Falta a grana.
Nina: Ora, que grana? O Zelito vai te ensinar.
Zé: Mas pra tirar a carta?
Nina: Minha mãe falou que empresta.
Zé: Não quero esmola. Ainda mais da sua velha.
Nina: Esmola, não. Dinheiro emprestado. Não sei por que você implica tanto com a minha mãe!
Zé: Porque ela sempre me agourou. Acho até que fiquei assim de tanto ela me secar.
Nina: Você acha que minha mãe ia querer a nossa desgraça?
Zé: Ela não queria nem que você se casasse comigo.
Nina: Ela só queria que a gente esperasse um pouco mais. Até você se firmar na vida.
Zé: A velha coroca queria era te fazer cansar de esperar. Se fosse esperar, até hoje a gente era noivo. Já íamos fazer bodas de prata de noivado. E nada de eu me acertar.
Nina: Não xinga a minha mãe, Zé.
Zé: Só estou falando a verdade. Ela que praga na gente. Disse que eu não ia ser nada. Pimba, acertou na mosca. Praga de sogra seca até pimenteira.
Nina: Mamãe sempre gostou muito de você.
Zé: Claro! Porque eu dei fama de bidu pra ela. Me estrepei, ela está contente. Põe a boca no trombone pra anunciar: “Não disse? Não falei? Não quiseram escutar, entraram bem”.
Nina: A gente não está assim por culpa dela.
Zé: Estamos assim por minha culpa, então?
Nina: Minha é que não é.
Zé: Então é minha?
Nina: Não sei. Da minha mãe não é.
(Pausa)
Zé: A culpa é da situação.
Nina: E minha mãe não tem nada com a situação. (Começa a chorar) Por ela a gente ia sempre bem. Você acha, Zé, que ela quer ver a nossa desgraça? Ela é minha mãe. Você casou comigo, é que nem filho dela. Ela gosta muito de você. Ela sempre reclama que você não visita ela, nem nada.
Zé: Não chora, boboca! Pombas! Eu estava brincando, não precisa se queimar. Vai, Nininha, para de chorar. Que coisa mais invocada!
Nina: Você falou sério.
Zé: Falei brincando
Nina: Jura?
Zé: Juro.
Nina: Então não brinca mais assim, Zé. Você sabe que eu não gosto.
Zé: Não... não brinco. (Pausa) Só que é fogo ter que pedir grana emprestada pra aprender a dirigir, pra depois ir trabalhar, pra depois ir pagar.
Nina: Que é que tem? Mãe é mãe.
Zé: Eu nem sei se levo jeito pra coisa.
Nina: Qualquer um aprende a dirigir.
Zé: Só que eu não sou qualquer um.
Nina: Você é igual aos outros. Igual aos outros, vírgula. Você é melhor.
Zé: Um cara que precisa da grana da sogra pra aprender uma profissão é o fim da picada.
Nina: Não põe minhoca na cabeça, Zé.
Zé: Mas é isso mesmo. Já pensou minha cara se eu não aprendo a guiar? Se não tiro carta?
Nina: Mas por que você não há de aprender?
Zé: Por quê? Porque, sei lá. Estou aterrado.
Nina: Bobagem, Zé. Tudo vai sair certo. (pausa) Você vai aprender?
Zé: Que remédio, né? Vou!
Nina: Posso falar pro Zelito que você topa?
Zé: Pode.
Nina: Sabe de outra coisa legal? Minha mãe falou que, se o Seu Raul quiser a casa mesmo, ela faz um quarto nos fundos da casa dela pra nós.
(Zé está abatido. Nina nem percebe. Vai tirando mantimentos da sacola e pondo em cima da mesa)
Nina: Olha quanta coisa mamãe deu pra gente.
Zé: Comida?
Nina: Poxa, Zé, ela parece que adivinhou. Nós estávamos bem ruins. Amanhã nem sabia o que ia fazer pro almoço. Não tínhamos nada.
Zé: Nina, o que você pensa de mim?
Nina: O quê?
Zé: Você acha que eu vou comer esmola? Morar de esmola? Você acha que eu vou viver de esmola? Eu não sou aleijado, nem nada. Sou forte. Quero trabalhar. Eu não vou viver de esmola.
Nina: Eu sei! Mas isso não é esmola. Foi minha mãe que deu. É só até a gente dar um jeito na vida.
Zé: Você deve ter chorado as pitangas lá na casa da sua velha. Ela deve ter ficado com uma puta pena da filhinha dela. Coitada, casada com um vagabundo, que não quer bulhufas com o basquete. A velha ficou com tanta pena que até deu esmola.
Nina: Mamãe só quer ajudar a gente. Ainda mais agora...
Zé: Que tem agora?
Nina: Agora...
Zé: Que você foi contar miséria?
Nina: Não, Zé. Não é nada disso.
Zé: Então por que só agora é que a coroa se lembrou de dar uma colher de chá pra nós?
Nina: Eu... estou grávida, Zé.
Zé: Grávida?
Nina: Vou ter um filho.
Zé: E não dizia nada?
Nina: Queria ter certeza.
Zé: Vamos ter um filho?
Nina: Se Deus quiser.
Zé: Poxa, eu vou sor pai?
Nina: Vai.
Zé: Vou ser pai! Que legal!
Nina: Quer homem ou mulher?
Zé: Homem, claro! E você?
Nina: O que Deus mandar está bom.
Zé: (Abraça Nina) Vem cá, Nininha. Vem cá.
Nina: Tomara que nasça parecido com você.
Zé: (Bate na madeira) Isola! Isola! Já pensou uma criança com uma cara dessas?
(Os dois riem. Luz apaga)
Quinto quadro
(Nina arruma a mesa e canta alegre. Fora de cena, a molecada joga bola. Zé entra e senta-se sem dizer nada. Nina estranha, mas finge que não notou a cara de desânimo de Zé)
Nina: Então, Zezinho? Vai hoje falar com o Zelito?
Zé: Tenho que ir, né?
Nina: Ânimo, homem! A vida vai melhorar.
Zé: Vai.
Nina: Vamos comer, Zé. Hoje fiz a comida que você gosta. Picadinho.
Zé: Vamos comer o pão que o Diabo amassou.
Nina: Não fale assim, Zé.
Zé: Por melhor que seja o tempero, essa comida vai ser dura de descer. Onde já se viu? Eu, um cara forte, tendo que viver de esmola.
Nina: Vai começar outra vez com essa história? Isso é uma ajuda que a minha mãe deu pra nós.
Zé: Esmola.
Nina: (Põe o prato na frente de Zé) Come, Zé. E não cria caso.
Zé: (Atira o prato longe) Não vou comer porra nenhuma! Nem que me dane todo. Nem que tenha que comer merda. Não vou engolir essa porcaria.
Nina: Você faz o que quiser. Morrer de fome é que não vou, só porque você é cheio de orgulho besta.
Zé Orgulho besta querer trabalhar?
Nina: Mas se não tem emprego?
Zé: Se não tem emprego, estende a mão e pede esmola. E depois? Com que cara vou me olhar no espelho? Aqui, ó! Me lasco, mas não me dobro. Tenho vergonha na cara.
Nina: Sem comer, ninguém pode viver.
Zé: Me lembro que minha mãe sempre dizia, quando o almoço atrasava e a gente reclamava que queria comer: “Está com fome? Faz como o lobisomem. Vai na rua, mata um homem e come”.
Nina: Claro que sua mãe falava brincando. Não existe lobisomem.
Zé: Claro que era brincadeira. Mas, para um cara de saco roxo que nem eu, é preferível desapertar em cima de um sacana qualquer do que aceitar esmola. Não ganhar nem pra comer é fogo, Nina. Deixa o sujeito ruim. Ou ele vira um cara de pau, nunca quer mais nada com nada e vai só no “me dá, me dá”, ou vira lobisomem e come os outros. Te juro por essa luz que me alumia que estou para embarcar numa dessas.
(Pausa)
Nina: Antes de fazer besteira... lembra que agora você vai ser pai.
(Pausa longa. Zé parece ter um grande conflito interior. Depois de um tempo longo, vira-se de costas para Nina)
Zé Nina... Você vai tirar esse filho.
referências
[1] É de 1963 a primeira versão desta peça, ainda com outro título: Enquanto os navios atracam. Em 2018-19, o diretor Augusto Zacchi e os atores Cesar Baccan e Carol Cashie – os três, egressos do Grupo TAPA – apresentarem montagem da peça no Teatro Aliança Francesa. Oswaldo Mendes, integrante do grupo paulista, assinou a supervisão artística do espetáculo. Quando as máquinas param já teve Tony Ramos, Luiz Gustavo e Marcos Paulo, nos papeis masculinos, e Walderez de Barros, Yara Amaral e Miriam Mehler, nos papeis femininos, em montagens dirigidas por Nelson Xavier, Jonas Bloch e pelo próprio Plinio Marcos.
Trecho extraído de Plínio Marcos, “Quando as máquinas param”. In. Alcir Pécora (Org.), Obras teatrais, v. 2: Noites sujas. Rio de Janeiro: Funarte, 2016, pp. 161-74.
No banner: o dramaturgo Plínio Marcos.
artigo por
Editora Temporal
É uma casa editorial brasileira focada na publicação de textos dramatúrgicos e na difusão da literatura teatral no Brasil. Nos artigos do seu blog oficial, a equipe editorial seleciona e apresenta trechos de peças cênicas relevantes da dramaturgia brasileira e internacional, acompanhados de contextualizações históricas, críticas e sociais — como neste texto, que introduz a obra Quando as máquinas param (1967), do dramaturgo Plínio Marcos.




