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"Lendo dramaturgia", por Érika Rocha

  • por Érika Rocha

  • categoria: Depoimento

  • tempo de leitura

    5 min
"Lendo dramaturgia", por Érika Rocha

Conheci a dramaturgia de debbie tucker green[1] durante a pesquisa para a montagem de um espetáculo no qual eu estava atuando e também era responsável pela dramaturgia. Eu procurava por histórias de mulheres britânicas negras ou histórias escritas por mulheres britânicas negras. Apesar das mudanças históricas relativas à produção e divulgação de obras realizadas por pessoas negras, ainda é necessário um trabalho de escavação para acessar essas produções em países tido como “brancos”, como a Inglaterra, por exemplo.

Depois de muito pesquisar, o Google me apresentou o artigo “debbie tucker green e Dona Daley: duas dramaturgas britânicas negras do novo milênio”, de Deirdre Osborne. Foi através desse texto que tive conhecimento da peça random, de debbie tucker green. Uma peça em que ocorre o assassinato “aleatório” de um menino negro após sair da escola. O fato de a personagem estar usando o uniforme escolar durante o assassinato me fez lembrar das inúmeras mortes de crianças negras aqui. E pensei: isso é tão Brasil! Pois bem, comecei a busca pelo texto random, ainda sem tradução para o português. Comprei um e-book, que veio com falhas e, por isso, não dava para acessar o texto. Conversando com uma amiga que fazia parte da equipe do espetáculo no qual eu estava atuando, soube que a irmã dela morava na Inglaterra, e ela me perguntou então se eu queria que me comprassem o livro. Respondi que sim. Poucas semanas depois o livro estava em casa, e comecei a ler a peça.

random é escrita em versos, e a primeira parte apresenta a rotina das personagens. Essa rotina, no entanto, não configura uma normalidade monótona ou entediante. A forma lírico-narrativa utilizada pela dramaturga nos envolve em uma espécie de círculo vertiginoso que faz com que fiquemos atentas e atentos à história contada. Já no início do texto, uma fala gera um estado de atenção:

PART ONE

SISTER:
…And the su’un in the air –
in the room –
in the day –
like the
shadow of a shadow feelin...
off-key – I...
look the clock. Eyeball it.
It looks me back.
Stare the shit down –
it stares me right back.

PARTE UM

IRMÃ: ...E tem alguma coisa no ar –
no quarto –
neste dia –
assim como
a sombra de uma sombra sentindo-me...
desajustada – eu...
olho o relógio. Encaro-o.
Ele me olha de volta.
Encaro a merda dos pés à cabeça –
ela me encara de volta.

Nesse trecho, a Irmã fala que tem algo diferente no ar, algo fora do lugar. Há também uma espécie de jogo com o Sol, como se ele estivesse tentando alertar a família sobre o que iria acontecer. A passagem do tempo na peça se dá pela posição do Sol no céu e também pelas horas anunciadas pelas personagens. A dramaturga une a passagem natural do tempo com a mecânica, o que pode sugerir que a segunda funciona como uma foice cortando os sonhos, desejos e vidas daquela história.

Outro ponto interessante do texto de tucker green é que as personagens não recebem nome. São elas: Irmã, Irmão, Mãe, Pai, Professora e outros. O que sugere que isso poderia acontecer com qualquer família negra. Insisto nesse ponto porque o episódio retratado no texto é o de um menino negro assassinado a facadas. A peça foi escrita em 2008, um ano depois de ocorrer na Grã-Bretanha um surto de crimes com faca que ceifou a vida de um grande número de adolescentes, em sua maioria rapazes negros, como apontou a pesquisadora Marissia Fragkou em Intercultural Encounters in debbie tucker green’s random. Assim, random apresentava uma certa uniformidade com a realidade de muitos jovens negros brasileiros, diferentemente de boa parte da dramaturgia europeia que eu li até o momento.

Uniforme é uma palavra capciosa. Ela pretende sugerir que dará forma única a seres, objetos e vidas diversas. Essa foi a palavra que mais me chamou a atenção em random. Os uniformes quase ganham vida no texto de tucker green: os uniformes dos policiais, a uniformidade na ação destes traduzidos em falas e gestos coreografados sem cor, sem vida; e os uniformes dos estudantes, que identificam um grupo e podem promover certa dignidade, mas que, na história, como às vezes na vida, falhou em garantir a existência de um menino.

A narrativa em versos nada uniformes nos conta a história a partir do ponto de vista da Irmã. Todo o desenvolvimento dos fatos se dá no fluxo de consciência dessa personagem – é ela quem nos apresenta e quase materializa as demais. Uma rubrica na página inicial do texto indica que uma atriz negra interpreta todas as personagens. A proposta parece um convite desafiador a qualquer atriz, visto que não se resume a um monólogo tradicional em que a personagem fala de si e do outro, mas, sim, trata-se de uma forma cênica em que enquanto se comenta a outra personagem é preciso também criá-la e defender seu ponto de vista.

A beleza de random está no modo como a poesia e as imagens nela presentes conseguem dar conta de uma realidade tão dura, tão perversamente padronizada em alguns grupos. Ao fim do texto é como se o Sol estivesse cansado de brincar e nos deixasse a esmo, aleatoriamente, na uniformidade do caos social.

[1] A dramaturga assina seu nome com letras minúsculas. Também o título da peça mencionada aqui é com inicial minúscula.

referências

No banner: montagem de Lugar nenhum, peça em que Érika Rocha (à esquerda) participou. Fotografia: Sérgio de Carvalho.

artigo por

Érika Rocha

É atriz, escritora e historiadora. Desde 2014 trabalha como atriz-colaboradora na Companhia do Latão. Trabalhou nos programas Vocacional (2021) e Piá (2022) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo como artista-orientadora na linguagem de Teatro. Em 2022 estreou seu primeiro trabalho como produtora e dramaturga, Mancala ou As sementes de Akin, premiado no 24º Cultura Inglesa Festival.

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