Inscreva-se na newsletter e garanta um bônus de primeiro acesso. Enviaremos um cupom no seu e-mail.
Corpo a corpo por Oduvaldo Vianna Filho
"Luiz Vivacqua é sociólogo, mas trabalha em uma agência de publicidade dirigindo a produção de anúncios para diversas mercadorias de uso cotidiano. Certa madrugada, transtornado pela substituição de um colega de trabalho na agência, bem como pelas condições de sua vida pessoal – casamento iminente, frustração como criador de propagandas e pouca credibilidade em seu ofício –, ele passa a proferir um longo monólogo em torno da crise sobre seu futuro.
Regado a álcool e cocaína, ele telefona para conhecidos e ex-amantes, tenta se conectar com pessoas de outro país via radioamador, grita da janela, canta e se debate com questões do contexto político-econômico brasileiro da época e com o desencanto frente a suas escolhas pequeno-burguesas. Em seu apartamento, Vivacqua, aos poucos, carrega o leitor-espectador pela vertigem de seus pensamentos e atitudes, revelando um caráter bastante questionável e, por vezes, individualista, apesar de seu alinhamento à esquerda."
"Luiz Vivacqua é sociólogo, mas trabalha em uma agência de publicidade dirigindo a produção de anúncios para diversas mercadorias de uso cotidiano. Certa madrugada, transtornado pela substituição de um colega de trabalho na agência, bem como pelas condições de sua vida pessoal – casamento iminente, frustração como criador de propagandas e pouca credibilidade em seu ofício –, ele passa a proferir um longo monólogo em torno da crise sobre seu futuro.
Regado a álcool e cocaína, ele telefona para conhecidos e ex-amantes, tenta se conectar com pessoas de outro país via radioamador, grita da janela, canta e se debate com questões do contexto político-econômico brasileiro da época e com o desencanto frente a suas escolhas pequeno-burguesas. Em seu apartamento, Vivacqua, aos poucos, carrega o leitor-espectador pela vertigem de seus pensamentos e atitudes, revelando um caráter bastante questionável e, por vezes, individualista, apesar de seu alinhamento à esquerda."
trecho da obra
Vivacqua (Luiz Toledo Vivacqua)
[...] “Não é possível você assim desarrumado, Vivacqua, um homem que ganha 8 milhões por mês e…” Eu tenho vergonha disso, Suely! e faz mais de quatro meses que só ganho ordenado, comissão não ganho mais! quatro meses só com 3 milhões e os descontos… tenho vergonha de ganhar 8 milhões, 2 milhões, 20 mil réis, por nada! “Não! Por nada? Ora, Vivacqua! É pra fazer propaganda! Que é isso, Vivacqua? Essa insatisfação vai te matar, Vivacqua!”… que propaganda, pelo amor de Deus? propaganda pras pessoas serem o que não podem ser? O que não têm jeito de ser e ficarem se roendo, os olhos amarelos de inveja? Passar a vida vendo se o vizinho tem geladeira de quantos pés?… Faz quatro meses que não me dão mais nenhum filme pra fazer! Vou virar office boy, marcando hora de estúdio e…? 8 milhões pra ser lustroso, pra ser alcoviteira do Tolentino, pra fazer filme de Cera Lemos “que belo chão temos”! Pra ficar encostado na agência porque eu sou amigo do Aureliano e o Aureliano não tem coragem de me dar filme pra fazer porque querem botar ele pra fora e ele faz tudo o que o Fialho manda e o Fialho não me bota pra fora que ele tem medo de mim porque eu sou alcoviteira do Tolentino… propaganda é isso, uma corrida desesperada de todo mundo pra vender cenários e humilhação… sou pago pra não tomar conhecimento do povo, jogar luxo nos olhos dele… sou pago pra provar pra ele que uma geladeira é um ser superior que uma loja é um templo onde se dá a multiplicação dos liquidificadores… quem não tem uma batedeira de bolo não entra no Reino dos Céus… a gente fica tão metido dentro daquela agência, tão atrás tricas e futricas que a gente esquece que foram eles que fizeram a geladeira, pomba, com o maçarico na mão… a gente começa a acreditar que somos nós que carregamos o povo nas costas… somos nós que temos de trabalhar feito cruzados pra convencer essa gente a acreditar no conforto, nos liquidificadores… eles ficam de outro país, entende? outro sangue, metabolismo diferente, é outra raça… “por isso é que são tão marelados, cavalheiro, entende?… esse amarelo na cara deles? Ah são
pessoas, não sei como explicar, cavalheiro, entende?… esse amarelo na cara deles? A cara toda vincada que quase não dá mais pra descobrir uma pessoa lá dentro? pois é! não são pessoas, não sei como explicar, cavalheiro, são amarelados…” por isso que eu não passo na porta de uma favela e não sento no meio-fio e fico chorando até estuporar as minhas veias lacrimejantes, a carótida, a aorta, o baço, a cabeça, por isso que meu olho não salta da pupila e… (Para. Meio desvairado. Longo tempo de silêncio) … eles querem pôr pra fora o Aureliano… o Aureliano tem indenização… e eu?… as outras agências também estão despedindo gente!… faz quatro meses que não faço filme… o da Cera Lemos todo mundo falou, falaram… mas isso se esquece rápido… isso…